Inteligência e Ateísmo

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A revista Época dessa semana apresenta uma entrevista com Richard Lynn, professor emérito da University of Ulster. Entre várias afirmações bombásticas, o entrevistado afirma que as pessoas mais inteligentes são mais propensas a questionar dogmas religiosos. Se por um lado a conclusão me agrada (teste sua inteligência inferindo a crença deste blogueiro), ela cheira a pseudo-ciência trabalhando para validar uma ideologia. Mais adiante na entrevista ficam claras as posições do prof. Lynn. Segundo ele "a média da população dos Estados Unidos tem Q.I. 98, alto para o padrão mundial, e ao mesmo tempo cerca de 90% das pessoas acreditam em Deus. A explicação é que houve um grande fluxo de imigrantes de países católicos, como México". Pode piorar: "Os negros americanos são mais inteligentes que os africanos porque têm 25% de genes da raça branca". O próprio prof. Lynn afirma ter um Q.I. 145, o que o qualificaria como genial. Não percebi toda essa genialidade na entrevista. Na verdade fiquei bastante incomodado com as afirmações do prof. Lynn que me pareceram muito mais preconceituosas do que científicas. O próprio conceito de Q.I., ou Quociente de Inteligência é bastante controverso, dado que diferentes testes podem levar a diferentes resultados. Cada teste está fortemente vinculado à cultura de quem o escreve e quais seus valores sociais e intelectuais.
Como é possível a partir de uma medida tão difusa quanto a de QI afirmar que um grupo de pessoas (ou uma certa raça) é mais inteligente do que outro?
Antes de mais nada investiguei um pouco o perfil do prof. Lynn. Lynn é um defensor da eugenia, o aprimoramento da espécie humana através de controle da reprodução buscando melhorar a nossa carga genética. esse tipo de idéia deu origem à ideologia nazista no século passado. O prof. Lynn faz parte do conselho (e recebe financiamento) do Pioneer Fund, uma fundação norte-americana estabelecida em 1937 para avançar o estudo científico de hereditariedade e diferenças humanas" (o grifo é meu). Na verdade trata-se de uma instituição que vem promovendo o racismo e o anti-semitismo pretensamente científicos. Trabalhos do prof. Lynn foram citados no infame The Bell Curve, o livro lançado nos EUA em 1994 que pretendia mostrar que os brancos são mais capazes que os negros e que felizmente caiu no merecido descrédito e esquecimento por entre outras coisas basear suas conclusões racistas em medidas metodologicamente mal feitas.
O trabalho do prof. Lynn é constantemente criticado pelas dificuldades das medidas, distorções e conclusões obtidas a partir de amostras muito ruins e limitadas.
Enfim, seu trabalho é muito mais ideológico do que científico, buscando dar uma roupagem de ciência a seus preconceitos. Isso fica claro na explicação dada pelo professor ao baixo índice de ateísmo no Brasil: "O Brasil segue a lógica, um porcentual baixíssimo de ateus (1%) e Q.I. mediano (87). É um país muito miscigenado e sofreu forte influência do catolicismo de Portugal e dos negros da África. Fica difícil mensurar a participação de cada raça no Q.I. atual. O que posso dizer é que a história do país se reflete em sua inteligência."

Apesar de viver muito feliz com meu ateísmo radical, não é com pseudo-ciência e racismo que vamos avançar em alguma direção.

O melhor a fazer em relação ao prof. Lynn é ignorá-lo. Aliás, essa é minha atitude em relação aos que colocam seus dogmas acima do bom senso e dos fatos. A revista Época errou ao dar-lhe espaço e credibilidade. Cultura Científica: Inteligência e Ateísmo


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